TCA50: Centro Técnico

Quem assiste a uma peça de teatro ou uma montagem de dança talvez não conheça o mundo que há por trás dos cenários, figurinos e adereços que fazem a magia das produções artísticas. Ao conjunto de técnicas e habilidades que dão forma e vida ao trabalho dos artistas e produtores, dá-se o nome de engenharia do espetáculo. O Centro Técnico do Teatro Castro Alves é referência no estado na prestação de serviços e apoio à criação, desenvolvimento e execução dos espetáculos que ocupam os palcos do TCA e do Brasil afora. Além de um núcleo de assessoria técnica, é um importante centro de formação e qualificação para os nossos operários e mestres das artes.

 

Antes que as cortinas se abram e a plateia desvende o mundo encantado que há em cada produção artística, uma equipe de profissionais das mais variadas áreas e habilidades é mobilizada meses ou anos antes de soar o terceiro sinal para materializar o desejo dos artistas e criadores. É impossível pensar o trabalho de atores, diretores, autores e coreógrafos sem a colaboração criativa dos costureiros, marceneiros, aderecistas, maquiadores, cenógrafos e uma infinidade de profissões responsáveis pela concretização dos projetos artísticos – ou seja, os artistas do backstage.

O Centro Técnico do Teatro Castro Alves é formado por uma equipe multidisciplinar qualificada e com grande experiência na concepção, confecção e montagem de espaços cênicos para as produções do próprio TCA e da cena artística baiana. Além de atender às demandas internas e externas de produção e operacionalização de elementos cênicos, o Centro Técnico é ainda um espaço de promoção de atividades de aperfeiçoamento profissional para seus próprios membros e para a comunidade técnica do estado.

 

Setor de Marcenaria do Centro Técnico. Foto: Acervo TCA.

USINA DE ARTE

O embrião do Centro Técnico (CT) surgiu em abril de 1988, sob a gestão de Márcio Meirelles, diretor do Teatro Castro Alves à época, com a publicação do Decreto Nº 1048/1988 pelo então governador do Estado Waldir Pires, que determinava a criação do Núcleo de Produção Cênica (NPC) – USINA, um espaço dedicado à produção de elementos cênicos dentro do próprio TCA, formado pelos setores de Cenografia, Figurino e Guarda-Roupa, e Adereços. Nos seus primeiros anos, os ateliês e oficinas ficavam distribuídos pelas instalações do TCA e contavam com um quadro profissional enxuto, porém já com grande experiência no mercado. O NPC atendia exclusivamente às demandas dos espetáculos do Balé do Teatro Castro Alves, o BTCA. Os setores trabalhavam de maneira independente, sem uma coordenação unificada.

Ainda nessa fase embrionária, a costureira cênica Lina Lemos foi convidada pela direção do teatro para formar um acervo de figurino disponível para empréstimos e aluguéis para a comunidade artística. Assim, a partir da reunião das peças do BTCA, de fantasias armazenadas e de figurinos doados ao teatro, nasceu o Guarda-Roupa do TCA. Desde cedo, já havia a preocupação de catalogação das peças, feita manual e cuidadosamente por Lina.

Com o fechamento do TCA para reforma em 1989, o Núcleo de Produção Cênica foi transferido para o anexo do Palácio da Aclamação, que passou a contar com um ateliê de adereços, além das oficinas de costura e carpintaria. Enquanto funcionava na sede temporária, o NPC recebeu os reforços da atriz, maquiadora e aderecista Zoila Barata, de e passou a ser coordenado por Ricardo Brugger, que conceberam um novo conceito de funcionamento para o setor. O projeto da reforma do TCA previa a instalação dos ateliês do NPC no segundo subsolo do teatro. Com a reabertura do Teatro Castro Alves em 1993, sob a gestão do diretor geral Theodomiro Queiroz, o Núcleo, agora ampliado e reformulado, foi rebatizado de Centro Técnico e passou a contar com salas de Costura, Carpintaria e Serralheria, Adereços, Maquiagem, Coordenação, Canteiro Cenográfico e o Guarda-Roupa.

O Centro Técnico passou a contemplar não apenas as demandas do BTCA, mas também solicitações externas de apoio à produção de espetáculos da cena artística baiana. Além da execução de cenários, figurinos e adereços, o CT começou a promover atividades de formação profissional nas diversas áreas técnicas e cursos de capacitação e reciclagem para os funcionários do TCA e de outros órgãos do Estado.

Em 2000, dentro das comemorações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, uma grande equipe composta também por profissionais do CT produziu os figurinos, adereços e a cenografia utilizados no desfile cívico. Para isso, o centro teve seu parque tecnológico ampliado com a aquisição de novos equipamentos, como máquinas de costura industriais, serras de bancada para marcenaria e serralheria e  solda elétrica, dentre outras. Em 2003, foi inaugurado o Armazém Cenográfico, vinculado ao Centro Técnico, que passava a disponibilizar para a classe artística um espaço para a guarda temporária de elementos de cenografia, além de serviços de reciclagem de objetos cênicos e empréstimos. O setor foi criado e administrado pelo artista plástico Yulo Cezzar desde sua inauguração até 2010. Atualmente, o artista plástico e cenotécnico Gei Correia coordena o setor, que funciona no antigo Cine Teatro do ICEIA.

 

Guarda-Roupa do Centro Técnico. Foto: Acervo TCA.

 

FOCO NA QUALIFICAÇÃO

A partir de 2007, sob a gestão de Moacyr Gramacho, cenógrafo e diretor geral do TCA, e Rose Lima, diretora artística, o CT passou a incrementar suas ações de formação e qualificação profissional. Assim, em 2008 foi lançado o projeto TCA Técnico, uma série de atividades formativas e debates sobre as profissões técnicas das artes cênicas e o papel do Teatro Castro Alves no fortalecimento deste mercado na Bahia. Sob a coordenação da arquiteta Renata Mota, o CT passou por uma reorganização espacial e do seu funcionamento e assumiu o desafio de se dedicar também à produção, documentação e democratização dos conhecimentos e saberes técnicos. Em paralelo à reestruturação física, foram realizadas consultorias e visitas a centros culturais nacionais e internacionais, oficinas, seminários e ações de interiorização a fim de transformar o Centro Técnico em uma referência nacional em engenharia do espetáculo.

Assim, surgiu em 2007 o projeto Conversas Plugadas, que possibilitou importantes trocas de experiências entre convidados técnicos (cenógrafos, iluminadores, figurinistas etc.), de projeção nacional e internacional, e profissionais do TCA e da classe artística local. Com acesso gratuito, o projeto se tornou, ao longo das suas dezenas de edições, um importante instrumento na requalificação do Centro Técnico do TCA e de fortalecimento do mercado cultural baiano, e foi determinante para que se iniciasse o projeto de implantação do Centro de Referência em Engenharia do Espetáculo, o CREE.

 

Lançamento do projeto Conversas Plugadas, com o cenógrafo e diretor de arte Gringo Cardia, em 2007. Foto: Isabel Gouvea.

Com o investimento crescente em ações de qualificação profissional, pesquisa e memória, para além dos serviços de produção e assessoria técnica, o CT deu início à sua transformação em um Centro de Referência em Engenharia do Espetáculo. Em 2008, o projeto de implantação do CREE foi encaminhado à Fundação Cultural do Estado da Bahia, e iniciou-se uma nova fase na história do Centro Técnico, com a ampliação do quadro funcional, contratação de novos técnicos, criação de novas vagas e sistematização dos registros das atividades através de fotografias, vídeos e textos, que culminou com a criação, em 19 de dezembro de 2008, do Blog do Centro Técnico do TCA.

A partir de 2008, o Centro Técnico passou a realizar a curadoria dos profissionais técnicos que seriam contratados para realizar as atividades de formação e de concepção de cenários, figurinos e iluminação das montagens do TCA.Núcleo, projeto de apoio à realização teatral que passava a ser realizado através de edital público.

Em 2011, o Centro Técnico sediou aulas do curso profissionalizante de nível médio em Tecnologias das Artes Dramáticas, com as habilitações de Cenografia, Figurino, Iluminação, Sonorização e Maquiagem, em parceria com o Sindicato dos Artistas e Técnicos  em Espetáculos de Diversões do Estado da Bahia (SATED) e o Instituto Federal da Bahia (IFBA). No mesmo ano, a designer e cenógrafa Lorena Peixoto assumiu o cargo de coordenadora do Centro Técnico.

No primeiro semestre de 2012, em parceria com a Escola de Dança da FUNCEB e a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (SETRE), o Centro Técnico desenvolveu o Projeto na Trilha das Artes, com habilitações em Cenotecnia e Técnicas de Palco. Naquele mesmo ano, foram realizadas as Oficinas de Cenografia, Iluminação e Figurino, dentro do projeto TCA. Núcleo, e os cursos do Programa Anual de Oficinas Técnicas.

Desde 2012, o CT oferece um projeto anual de oficinas voltado para a especialização de técnicos baianos em habilidades específicas como modelagem para costura cênica, áudio digital, desenho técnico para cenário e figurino, entre outros. A relação com as universidades também foi estreitada através de aulas, visitas e vivências de alunos de arquitetura, artes cênicas, moda, dança e artes plásticas.

Em 2014, quando a FUNCEB passou a oferecer cursos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), o Centro Técnico ficou responsável pela criação das disciplinas e ementas dos cursos, sediamento das aulas e seleção de professores para os cursos de Cenotécnica, Iluminador e Auxiliar de Costura. No ano seguinte, o blog do Centro Técnico deu lugar a uma nova plataforma digital, que traz informações sobre o acesso aos serviços, leis e normas que regem as profissões técnicas do espetáculo, banco de materiais acadêmicos e artigos de periódicos disponíveis para download, acesso ao acervo de figurinos do TCA, dentre outros conteúdos.

O Centro Técnico foi objeto de estudo da defesa de mestrado dos cenógrafos Ricardo Frota e Agamenon de Abreu. Frota teve sua carreira impulsionada após a criação da cenografia do espetáculo Policarpo, do TCA.Núcleo, em 2007, cujo processo criativo deu origem ao projeto de pesquisa “A cenografia de Policarpo Quaresma: Um processo criativo de construção compartilhada”, no Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da Universidade Federal da Bahia, defendido na sede do Centro Técnico em 2015. Já Agamenon, que iniciou sua vida profissional como estagiário do CT e chegou a ser coordenador geral do setor, defendeu a dissertação com o tema “Gaveta de ideias: um ponto de vista de processos criativos no teatro em Salvador, também pelo PPGAC, em fevereiro de 2017.

O CREE

No final de 2009, foi lançado o concurso Concurso Público Nacional de Anteprojetos Arquitetônicos para Requalificação e Ampliação do Complexo TCA, marco do programa Novo TCA, destinado a escolher a melhor proposta para reforma e expansão dos espaços do Teatro Castro Alves. O projeto vencedor, apresentado pelo Estúdio América (SP), em acordo com o Termo de Referência elaborado pela equipe interna do teatro, prevê a construção do Centro de Referência em Engenharia de Espetáculos (CREE), um novo núcleo que expandirá as atividades do atual Centro Técnico.

Com novas instalações, o Centro Técnico do TCA se transformará num centro de referência nacional no campo da engenharia do espetáculo. Sua missão será ampliar as ações voltadas para a produção, registro e difusão de conhecimentos nos campos da cenografia, figurino, maquiagem, som e iluminação cênicas, além de prestar assessoramento no campo da cenotecnia a equipamentos culturais públicos e privados. Valendo-se da efervescência dos palcos do TCA, o CREE será um ponto de encontro da Bahia, do Brasil e do mundo no que tange às técnicas e tecnologias do espetáculo, valorizando e aperfeiçoando os saberes e fazeres de quem está nos bastidores.

Integrado ao CREE, o Laboratório Cenográfico será um espaço com as mesmas dimensões da caixa cênica da Sala Principal e oferecerá condições para a afinação técnica da cena antes da estreia. Nele será possível realizar experimentações da engenharia do espetáculo, através da pré-montagem de cenários. O Laboratório servirá ainda para a realização de oficinas e residências técnicas.

No projeto do CREE, a ser executado na segunda fase do Novo TCA, está prevista ainda a implantação de biblioteca especializada, salas para cursos e palestras, adequação e ampliação das instalações de serralheria, carpintaria, canteiro, costura, adereços e acervo de figurino.

 

Serviços prestados pelo Centro Técnico:

– Confecção de estruturas em madeira e metal
– Desenvolvimento de traquitanas e sistemas para efeitos especiais
– Pintura lisa, envelhecimento e texturização de objetos
– Confecção de adereços de figurinos e cenário
– Chapelaria cênica
– Perucaria cênica
– Máscaras cênicas
– Modelagem de trajes
– Costura cênica
– Costura de cortinas e painéis cênicos
– Desenvolvimento e promoção de cursos, oficinas, workshops e palestras nas áreas de engenharia do espetáculo
– Assessoria técnica a espaços e equipamentos culturais
– Locação e empréstimo de figurinos e adereços através do Acervo de Figurino
– Armazenamento temporário e empréstimo de objetos cênicos através do Armazém Cenográfico

Conheça o Centro Técnico por dentro:

NÚCLEO DE PRODUÇÃO: composto pelos ateliês de COSTURA, ADEREÇOS E CENOTECNIA (oficinas de carpintaria e serralheria), oferece um leque de apoios à classe artística baiana, no sentido de ajudar a viabilizar as produções de espetáculos no estado.

– Locação e empréstimo de figurinos e adereços, através do ACERVO DE FIGURINO.
– Guarda provisória e empréstimo de material cenográfico, através do ARMAZÉM CENOGRÁFICO.
– Confecção, restauração e reforma de cenários, figurinos e adereços, através do NÚCLEO DE PRODUÇÃO TÉCNICA.
– Assessoria técnica a produtores, técnicos e criadores, através de consultas presenciais à equipe do setor.

NÚCLEO DE QUALIFICAÇÃO: tem como objetivo contribuir para a profissionalização e fortalecimento do mercado técnico da engenharia do espetáculo na Bahia. Para tanto, o setor oferece uma série de ações de formação, capacitação e qualificação profissional através de cursos, oficinas, palestras e workshops nas áreas de cenografia, cenotecnia, figurino, costura cênica, caracterização, maquiagem, iluminação e sonorização. Além dos cursos presenciais, profissionais, estudantes e interessados nas áreas técnicas de teatro podem buscar informações para o seu aprimoramento, através de tutoriais, videoaulas e de um glossário de termos técnicos disponíveis no site.

NÚCLEO DE PESQUISA: responsável pela pesquisa, compilação, sistematização, organização, armazenamento e disponibilização para o público de informações sobre a engenharia do espetáculo, bem como o registro da memória das artes cênicas da Bahia através da manutenção de acervos de croquis, projetos, cenários, figurinos e adereços de espetáculos.

O Núcleo de pesquisa é responsável pela manutenção dos acervos do Guarda-Roupa e do Armazém Cenográfico, pela organização e circulação de exposições e pela manutenção e alimentação do site do Centro Técnico.

Centro Técnico em números

– Entre 2007 e 2017, 1681 produções de eventos e espetáculos foram apoiadas com a confecção de cenários, figurinos e adereços.
– De janeiro de 2015 até junho de 2017, 473 produções foram apoiadas através de empréstimos e aluguéis de trajes do Acervo de Figurino.
– Atualmente, 134 espetáculos possuem cenários sob a guarda do Armazém Cenográfico.
– De 2007 a 2017, foram realizados 74 cursos de formação nas áreas técnicas, com cerca de 1400 alunos.