TCA50: além dos 50

O Teatro Castro Alves completa 50 anos desde a sua inauguração oficial, mas sua história começa muito antes daquele final de verão de 1967. Entre sair do projeto de lei e finalmente abrir as cortinas, o TCA passou por uma pré-estreia de duas décadas, uma temporada marcada por mudança de projeto arquitetônico, um incêndio a poucos dias da inauguração e um período de reconstrução longo – mas criativo.

 

Salvador carecia de um teatro de grande porte desde que suas maiores casas fecharam as portas ainda no início do século XX: primeiro o Teatro São João, fundado em 1812, localizado na atual Praça Castro Alves e destruído pelo fogo em 1923; em seguida, o Theatro Polytheama Bahiano, inaugurado em 1886 onde hoje está situado o Instituto Feminino da Bahia e demolido em 1936. A partir daquele ano, iniciaram-se as tentativas de construção de um grande teatro na Praça Dois de Julho, no Campo Grande.

Ficaram apenas no papel tanto o projeto em estilo marajoara desenvolvido pela Companhia Construtora Nacional S.A., em 1936, a pedido do interventor federal Juracy Magalhães, quanto um outro elaborado por Hélio Duarte em 1943, sob encomenda do então prefeito de Salvador, Elísio Lisboa. Apenas em 1948, o Projeto de Lei n. 432, encaminhado à Assembleia Legislativa pelo deputado estadual Antônio Balbino, dava início à construção do tão aguardado teatro, iniciada na gestão do governador Otávio Mangabeira.

O primeiro projeto do Teatro Castro Alves foi criado, a pedido de Mangabeira, pelos arquitetos Diógenes Rebouças, Alcides da Rocha Miranda e José de Souza Reis. À época, o então secretário de Educação e Saúde do Estado, Anísio Teixeira, vislumbrava um equipamento que se chamaria Centro Educativo de Arte Teatral (CEAT) e agregaria salas para apresentação de espetáculos de múltiplas linguagens e espaços para formação. Àquela altura, a sala principal já se chamaria Castro Alves, em homenagem ao poeta baiano.

Moderno para os padrões arquitetônicos da Salvador dos meados do século passado, o projeto inicial do TCA despertou críticas e elogios por parte dos diversos segmentos da arquitetura e da opinião pública. Ao tempo que era celebrado como uma obra de vanguarda e de proporções monumentais, também era acusado de apresentar lacunas e inconsistências que impossibilitariam sua execução. Controvérsias à parte, no ano de 1948 a Christiani & Nielsen Engenheiros e Construtores S.A. ganhava a concorrência pública para a construção do TCA e era assinado o  decreto que abria linha de crédito para a obra.

 

Primeiras obras de construção do Teatro Castro Alves, entre o final dos anos 1940 e o início da década de 1950. Foto: Acervo TCA.

 

Iniciada em 1949, um ano após sua autorização, a construção do TCA extrapolou os prazos iniciais de conclusão e chegou a ser totalmente paralisada durante a primeira metade dos anos 1950. As obras foram retomadas apenas em 1957, quando Antônio Balbino, o mesmo deputado que propunha o projeto de lei, era governador da Bahia. A pedido de Balbino, o arquiteto José Bina Fonyat Filho e o engenheiro Humberto Lemos elaboraram um novo projeto para o Teatro Castro Alves, que recebeu menção honrosa na IV Bienal de São Paulo. Houve à época um movimento de oposição à mudança de projeto.

A obra passou a ser executada pela Construtora Norberto Odebrecht a partir de 2 de julho de 1957, com inauguração prevista para 14 de julho de 1958. No entanto, durante o período de visitação pública, a cinco dias da abertura oficial, na madrugada de 9 de julho de 1958, um incêndio destruiu o bloco principal do TCA, reprisando a mesma tragédia ocorrida com o Teatro São João 35 anos antes.

 

Registro raro do incêndio que destruiu parte do recém construído Teatro Castro Alves, na madrugada do dia de julho de 1958. Foto: Acervo TCA.

 

Apesar de a reconstrução do TCA ter se iniciado ainda em julho de 1958, as obras levariam ainda mais tempo para serem concluídas, atravessando três gestões governamentais. A Concha Acústica, não acometida pelo fogo, foi inaugurada em abril de 1959. Já os escombros da sala principal foram palco de uma programação rarefeita, mas histórica.

Foi assim que, em 1960, o palco incendiado recebeu a encenação da peça A Ópera dos Três Tostões, de Bertolt Brecht, com participação de 33 atores e 11 músicos. Em junho de 1961, foi a vez da remontagem do espetáculo Calígula, de Albert Camus, também com grande elenco. Ambos os espetáculos foram dirigidos por Martim Gonçalves, fundador-diretor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, e tiveram cenografia assinada pela arquiteta Lina Bo Bardi, primeira diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia. Entre 1960 e 1963, o Foyer do Teatro Castro Alves também abrigou a primeira sede do MAM-BA, por onde passaram importantes exposições à época.

 

Registro da Ópera dos Três Tostões, de Bertolt Brecht, encenada nos escombros do palco incendiado do Teatro Castro Alves, em 1960. Foto: Acervo TCA.

 

A reconstrução do TCA foi concluída durante o governo de Lomanto Júnior e finalmente o teatro foi inaugurado em 4 de março de 1967, nove anos depois do fatídico incêndio. A programação de abertura contou com apresentações da Companhia Nacional de Ballet e do Quinteto Villa Lobos; o espetáculo teatral Oh Que Delícia de Guerra; o show Rosa de Ouro, com Clementina de Jesus e Paulinho da Viola; além do cantor e compositor baiano Dorival Caymmi e do Madrigal da Universidade Federal da Bahia. Um recital de poesia em comemoração aos 120 anos de nascimento de Castro Alves também marcou a inauguração do teatro.

Durante seus 50 anos de atividade, os espaços do Complexo Teatro Castro Alves passaram por outras reformas e foram novamente devolvidos à sociedade, para voltarem a ser aquilo a que se destinam: palcos de expressão da cultura da Bahia e do mundo.   

 

Show Rosa de Ouro, com Clementina de Jesus, Paulinho da Viola e Elton Medeiros, durante programação de inauguração do TCA, em 1967. Foto: Acervo TCA.